Castanha de Caju: o ouro de Serra do Mel no Sertão Brasileiro

No século das grandes navegações, quando chegaram os primeiros europeus ao Brasil, encontraram uma terra promissora de gente e frutos exóticos, que se confundia com a visão do paraíso terrestre, onde o cajueiro era a verdadeira árvore proibida. Datam da metade do século 16 as primeiras e maravilhadas descrições dos pomares de cajueiros sem fim do litoral do nordeste brasileiro, bem como de seus frutos e usos.

Foi a partir de então que o caju iniciou a sua viagem pelo mundo: embarcado nos navios portuguesas, aportou em Moçambique, Angola, no Quênia e em Madagascar, na África, e em Goa, na Índia. Os cajueiros, logo começam a crescer em grande quantidade em terrenos em que antes nada havia, passando a incorporar à vida e à economia local.
Enquanto isso, em sua terra de origem, as árvores de caju foram sendo substituídas, primeiro por plantações de cana-de-açúcar e, muito tempo depois, por casas e edifícios luxuosos à beira-mar. Por muitos anos, as possibilidades de exploração econômica rentável do caju foram desconsideradas nas terras brasileiras.

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A inserção da cultura do cajueiro enquanto atividade econômica começou a ser implantada no Nordeste nos anos de 1970, tendo como objetivo a formação de pomares comerciais. Assim, como na maioria dos exemplos de desenvolvimento da agricultura no Brasil, o plantio racional de cajueiro compreende a instalação física da cultura em solos preparados mecanicamente, com espaçamentos previamente definidos e sem modificação de ambiente na busca por proporcionar melhores respostas de produção da planta. Assim, diante das mudanças relacionadas a produção do caju, será apresentado como ocorreu o processo de incorporação da cultura do Caju enquanto atividade econômica entre agricultores da Serra do Mel, no Nordeste brasileiro.

O produtor de caju

A cajucultura pode também ser caracterizada como a principal atividade da população rural do semiárido nordestino, produzida em regime de sequeiro, sem irrigação, na época mais seca do ano, justamente no período de entressafra das demais espécies cultivadas na região, como o milho e o feijão. A cadeia produtiva da cajucultura é responsável por representar grande parte do potencial econômico da Região Nordeste, complementando a renda do agricultor.
A cadeia produtiva da cajucultura tem significativa importância para o agricultor da região Nordeste, na medida em que complementa a renda por meio da exploração de atividade com potencial econômico que aos poucos tem melhorado sua estrutura de produção e agregação de valor.

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No Nordeste brasileiro, um dos destaques na produção de caju é o município de Serra do Mel, que, apesar do nome, tem na castanha de caju o propulsor de sua economia desde sua fundação. Situado no oeste do Rio Grande do Norte, local onde o sertão encontra o mar, Serra do Mel tem uma história de colonização peculiar. Datada dos anos de 1970, com o intuito de atender a mão de obra ociosa das salinas presente na região, que passaram por processo de mecanização deixando muitos trabalhadores desempregados, o então governador do estado Cortez Pereira desmembrou uma área de aproximadamente 600 km² de municípios circunvizinhos para a implementação do projeto de colonização baseado no modelo de assentamento Moshav de Israel. Esse modelo de colonização tinha como objetivo difundir o associativismo que combinava pequenas propriedades geridas de modo privado e serviços coletivos com a comercialização de produtos e a organização de pequenas unidades de beneficiamento, com o intuito principal de promover o cultivo abelhas para produção de mel e de cajueiros para o beneficiamento de seus derivados.

Para isso, Serra do Mel foi organizada em vilas, as quais levam nome de um estado da federação brasileira, sendo 22 vilas rurais e uma vila administrativa, denominada de vila Brasília. As vilas possuem em média 59 lotes de 50 hectares cada, centradas principalmente no cultivo de cajueiros e culturas de subsistência, produzidos pelos agricultores familiares em seus lotes, sendo 15 hectares com plantação de cajueiros.

Toda a população do município é, de alguma forma, envolvida com a produção ou beneficiamento da castanha de caju, garantindo trabalho e renda o ano inteiro para as famílias. De maneira geral, esses agricultores se organizam em associações e cooperativas, tendo como diferencial a descentralização da atividade, em que, no processo de produção, cada membro da família tem sua função determinada, destacando a importância das mulheres no processo de classificação das castanhas.

O aproveitamento do caju pelos agricultores familiares da Serra do Mel

Do Caju tudo é aproveitado. Do pedúnculo, rico em vitamina C e vitamina B12, é possível a produção de outros subprodutos industrializados como: doce, polpa, cajuína, carne básica do caju, bife, paçoca, omelete, cuscuz, sopa, mel natural, rapadura, bolo, geleia, pastel, pão, biscoitinho, hambúrguer, licor, dentre outros. Já a castanha de caju é rica em proteínas, calorias, carboidratos, cálcio, fósforo e ferro.

A composição da castanha de caju tem sua divisão em três partes bastante distintas e entre si: a casca, a amêndoa e a película, que as separa. A casca representa cerca de 70% do peso da castanha. Ela possui uma parte esponjosa cujos alvéolos são preenchidos por um líquido cáustico e inflamável, denominado líquido da casca da castanha (LCC). A película é uma membrana fina, de tons avermelhados, que envolve a amêndoa e tem cerca de 3% do peso da castanha. A amêndoa é a parte comestível da castanha e tem grande aceitação no mercado por seu sabor marcante, sua textura crocante e macia e sua riqueza nutritiva.

Essa diversificação, a partir de um único fruto, apresenta a possibilidade para que os pequenos produtores rurais de castanha de caju da Serra do Mel acessem mercados além da venda in natura do pedúnculo para fábricas de suco. Vale destacar que antes da proibição do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA) da comercialização de polpa de fruta sem registro, os grupos de mulheres aproveitavam o pedúnculo para produzir polpa de fruta para ser entregue a merenda escolar por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Após a proibição e devido as dificuldades encontradas para regularização das unidades de beneficiamento, a saída encontrada foi destinar o pedúnculo para as fábricas de suco, que, no período de safra chega a comprar o quilo do pedúnculo por R$ 0,28 centavos.

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Recentemente, com a presença na região de inúmeras indústrias ceramistas e cimenteiras, um novo mercado se consolidou por meio da utilização da casca da castanha de caju como combustível para a queima dos fornos para a produção de cerâmicas e cimento.

Nesse contexto, um novo mercado se consolidou nos últimos anos, com a presença na região de inúmeras indústrias ceramistas e cimenteiras que utilizam a casca da castanha de caju como combustível para a queima dos fornos para a produção de cerâmicas e cimento. Essa utilização da casca da castanha de caju converte um problema ambiental em uma fonte de renda ao produtor, visto que evita a contaminação aos recursos naturais utilizando o alto poder de contaminação para a produção de energia. Apenas no ano de 2011, a venda da casca de castanha de caju gerou uma receita de mais de R$ 1.170.000,00 para o município, transformando o que antes seria um resíduo com alto potencial de poluição ambiental, em uma alternativa viável de aumento da renda para as famílias.

Modelo de sucesso, as unidades de beneficiamento artesanal de Serra do Mel têm uma capacidade de produção anual de 2,5 toneladas, garantindo estrutura suficiente para a produção durante o ano inteiro. Outra particularidade vista no município é a presença de atravessadores na contratação de mão de obra para o corte da castanha daqueles que não possuem produção própria, acarretando em um dos pontos mais frágeis identificados nessa cadeia produtiva, pois, o valor pago é extremamente baixo para um trabalho altamente insalubre.

Em controvérsia, aqueles que possuem produção própria ou detém capital de giro para a compra da amêndoa para o beneficiamento de outras unidades, fazem girar a economia do município em valores altos. Foi registrado em pesquisa financiada pelo CNPq realizada pelo Grupo de Pesquisa Desenvolvimento Regional Agricultura e Petróleo da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, que apenas no ano de 2011 foi gerado mais de R$ 17 milhões com a venda de aproximadamente uma tonelada de castanha de caju beneficiada. A maior parte da geração desse montante vem das unidades familiares de beneficiamento, sendo esse valor relevante para um período tido como de seca extrema na região e que muitos colonos perderam os seus cajueiros.

Como cerca da metade do pomar foi dizimado devido mais de cinco anos de seca na região e a idade avançada dos cajueiros, a cadeia da cajucultura recebeu maior atenção e começou a ser revitalizada no município. Uma parceria entre a Prefeitura de Serra do Mel, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE, no Rio Grande do Norte, Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural – EMATER, Empresa de Pesquisa Agropecuária – EMPARN, RN Sustentável, Cooperativa dos Beneficiadores Artesanais de Castanha de Caju do RN – COOPERCAJU e Federação das Associações das Vilas de Serra do Mel – FAVIMEL, buscando a implementação de novas tecnologias no cultivo, inserindo novos clones de cajueiro e realizando análise prévia do solo. O projeto de revitalização prevê ainda a realização de capacitação para enxerto e substituição de copas, manejo do solo e de pragas, implantação de viveiros e acesso ao crédito, com isso, a expectativa é de que a produção melhore nos próximos anos.

Essas entidades sempre estiveram presente de alguma maneira no apoio as atividades da cadeia produtiva da cajucultura em Serra do Mel, dessa forma, foi a partir da demanda levantada pelos produtores de castanha de caju e a prefeitura municipal que junto ao Comitê da Cajucultura do estado foi possível iniciar um processo de recuperação dessas áreas, principalmente a partir da inserção de novos clones de cajueiro do tipo anão-precoce adaptados a região que é produtivo mesmo em períodos de seca.

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Ainda que apresente um processo de beneficiamento estritamente artesanal e carente de inovação tecnológica, onde o corte ainda realizado nos fundos das casas, embaixo dos cajueiros ou nos alpendres, e tendo como principal mão-de-obra a família, a produção de castanha de caju em Serra do mel se concretiza como uma atividade produtiva resistente e que mantem a tradição desde a criação do município. Mesmo enfrentando processos de êxitos e adversidades, os atores responsáveis pela dinamização produtiva desta atividade que move a economia do município têm buscado sempre novos métodos que fortaleçam a cadeia produtiva, seja por meio das cooperativas e associação ou das parcerias com entidades públicas-privadas e buscando estocar castanha para que ela seja beneficiada o ano inteiro ou em muitos casos comprando a amêndoa in natura de outras regiões e até estados para dar continuidade a atividade.


Contato:
Grupo de Estudos e Pesquisas Agricultura Familiar e Desenvolvimento Rural – GEPAD
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Porto Alegre – Rio grande do Sul – Brasil
Alessandra Matte – Secretaria de Assuntos Gerais
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Autores:
Andreya Raquel Medeiros de França, Gestora Ambiental, Mestre em Ambiente, Tecnologia e Sociedade – UFERSA, Doutoranda em Desenvolvimento Rural pelo Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Rural – PGDR/UFRGS. E-mail: Esta dirección de correo electrónico está protegida contra spambots. Usted necesita tener Javascript activado para poder verla.

Emanoel Márcio Nunes, Economista, Doutor em Desenvolvimento Rural pelo Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Rural – PGDR/UFRGS. Professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN. E-mail: Esta dirección de correo electrónico está protegida contra spambots. Usted necesita tener Javascript activado para poder verla.

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