Aprendiz do campo: estimulando a sucessão rural por meio do cooperativismo no município de Teutônia no sul do Brasil

Nos últimos anos houve uma drástica redução da população que vive no meio rural e que tinha na atividade agropecuária sua principal fonte de renda. Esse processo é agravado na medida em que a saída ocorre sobretudo entre jovens, representando desafio central nas ações e estratégias que procuram pensar o desenvolvimento rural no Brasil. Diante desse contexto, o presente trabalho analisa uma proposta de educação rural, alicerçada no cooperativismo, que visa formar jovens autônomos, protagonistas e que possam fazer da atividade agrícola sua escolha profissional, enquanto estratégias de incentivo à permanência de jovens no meio rural.

 

Ainda que se saiba da sua existência no Brasil desde a época da colonização portuguesa, o cooperativismo começa oficialmente em 1889, no estado de Minas Gerais, com a criação da Cooperativa Econômica dos Funcionários Públicos de Ouro Preto, e seu foco era o consumo. Em 1902 surge a primeira cooperativa de crédito, no município de Nova Petrópolis, no estado do Rio Grande do Sul, o Sicredi, em atividade até hoje. Por fim, em 1906 são registradas as primeiras cooperativas agropecuárias, criadas principalmente por imigrantes italianos no sul do país.

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O cooperativismo agropecuário tem importante participação na economia brasileira, em que é atualmente responsável por quase 50% do PIB agrícola e envolve mais de 1 milhão de pessoas. Dentre todos os ramos de atuação do cooperativismo brasileiro, o agropecuário tem papel de destaque, com 1.597 instituições e 180,1 mil produtores cooperados. No estado do Rio Grande do Sul, uma parcela expressiva dos agricultores está organizada em cooperativas. Segundo o Sindicato e Organização das Cooperativas do Rio Grande do Sul (Ocergs), em 2014 havia 138 cooperativas agropecuárias no Estado, que contavam com mais de 290.000 associados, correspondendo a 85% dos agricultores e empregavam 32,5 mil pessoas.

O município de Teutônia possui o maior percentual de cooperados no estado do Rio Grande do Sul. A presença do trabalho integrado justifica o título de “Terra do Cooperativismo”, e essa organização social do município também representa uma forte influência no desenvolvimento econômico e social nos meios rural e urbano na região do Vale do Taquari, na qual se insere Teutônia. A cidade ocupa a 3ª posição em arrecadação entre os 39 municípios do Vale do Taquari, conforme dados do Censo demográfico de 2010, tem uma população de 27.272 habitantes, sendo que destes somente 3.950 habitam a zona rural. Em poucos anos, a população rural diminuiu drasticamente, o número de estabelecimentos agrícolas, bem como a área reservada para as atividades agropecuárias, consequentemente teve uma redução significativa. Este fenômeno está associado a não permanência dos jovens no campo intensificando o processo de urbanização que ocorre no Vale, afetando a estrutura econômica, alicerçada na produção agropecuária e agroindustrialização.

Os jovens que migram para as cidades são atraídos por ofertas de trabalho e de estudo, partem em busca de uma melhor condição de vida e deixam de se preparar para dar continuidade às atividades da propriedade rural. Atualmente, muitos são os problemas enfrentados nas propriedades rurais no que tange a sucessão familiar e associativismo; o agricultor não está mais conseguindo influenciar seus filhos para a continuidade da atividade rural, resultando no chamado êxodo rural, uma das principais consequências desse fenômeno é a redução e ausência de fidelização de integrantes de cooperativas, uma vez que essas organizações possuem significativa dependência da sucessão dos associados pelos seus filhos, o que nem sempre ocorre de maneira tranquila.

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A sucessão na agricultura familiar, portanto, não acontece mais de forma natural, ou espontânea, muitas vezes torna-se a “última opção”. Neste contexto, propostas educacionais que problematizem e articulem geração de renda e cooperativismo são fundamentais para construir alternativas de permanência do jovem no campo, não apenas para moradia, mas visando o desenvolvimento rural.

O cooperativismo é decorrente de uma necessidade comum entre as pessoas e da consciência de superação conjunta de problemas, com vistas à obtenção de benefícios aos que cooperam. A pequena propriedade familiar e a organização comunitária representaram os esteios da construção social do Vale do Taquari, e neste contexto, a cidade de Teutônia nasceu com o espírito do cooperativismo. Seu território foi ocupado por imigrantes alemães que engendraram, ao longo da produção social do espaço, a emergência do fenômeno do associativismo. A solidariedade entre os colonos era uma prática do cotidiano, cultuada, sobretudo, para fazer frente aos obstáculos naturais e às deficitárias condições de suprimento dos indivíduos e da coletividade. Ajudar o vizinho na colheita, nas edificações da propriedade e na construção do espaço público, como escolas e igrejas, caracterizam o perfil social dos atores sociais oriundos das levas de migrantes que definiram o modelo hegemônico de assentamento da região.

A capacidade de aprender, condição para a educação, é decorrente de necessidades humanas, do conjunto de desafios que as mulheres e homens encontraram para resolver problemas da sua vida. Partindo desse pensamento, agricultores se unem para conseguir melhores resultados do que, geralmente, não conseguiriam se estivessem sozinhos. Prosperar se torna mais fácil quando se tem ajuda mútua.

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Programa Aprendiz Do Campo

Os Programas de Aprendizagem são programas técnico-profissionais que preveem a execução de atividades teóricas e práticas, sob a orientação de entidade qualificada em formação técnico-profissional, os quais selecionam adolescentes ou jovens entre 14 e 24 anos que estejam matriculados e frequentando a escola para atividades em horário inverso às aulas. O Programa Aprendiz do Campo, desenvolvido pelo Colégio Teutônia, escola de ensino técnico profissionalizante, executora de programas de aprendizagem do Sistema Sescoop (Sistema de cooperativas do RS), tem como objetivo proporcionar e reforçar conhecimentos e competências pessoais, sociais e relacionais, que se inserem na vida comunitária e são necessárias a diferentes contextos de trabalho, favorecendo aprendizagens mais amplas, de natureza científica, essenciais ao exercício profissional. O Programa prevê aprendizagem, com a metodologia da alternância, sendo que as atividades práticas são orientadas e fundamentadas no seu fazer.

O processo de Ensino Aprendizagem está fundamentado nas trocas de experiências entre estudantes e professores envolvidos e se dá por meio de metodologias que buscam desenvolver o potencial de cada indivíduo, mas especialmente a capacidade de trabalhar em grupos ou em equipes. Para tanto são realizadas análises e diagnósticos com exercícios de tomada de decisão e aplicação de métodos e técnicas aos sistemas de produção agropecuários, enfatizando os conceitos da Sustentabilidade e do Cooperativismo. Além da visão pedagógica da aprendizagem, esse programa busca despertar o interesse pela atividade agropecuária nos jovens rurais e urbanos, enfatizando a importância da permanência do jovem no meio rural e destacando a questão da sucessão familiar no campo.

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O Programa Aprendiz do Campo possui carga horária de 1104 horas, sendo 552 horas de conteúdo teórico e 552 horas de atividades práticas, em um período de 18 meses, e adota a metodologia da alternância, sendo duas semanas de aulas teóricas e duas semanas de atividades práticas. Os módulos teóricos e práticos são desenvolvidos respectivamente no Colégio Teutônia, que possui estrutura de produção e manejo de bovinos, ovinos, suínos, culturas forrageiras, culturas de verão, culturas de inverno, horticultura, fruticultura, floriculturas, sistemas de gestão e monitoramento ambiental, sistemas agrosilvipastoril e mecanização agrícola.

Cooperativa Escolar de Aprendizagem Teutônia

Em parceria com a Cooperativa de Crédito Sicredi, que possui um programa de cooperativismo escolar, surgiu a ideia de montar uma Cooperativa Escolar, uma associação de estudantes com finalidade educativa, podendo desenvolver atividades econômicas, sociais e culturais em benefício dos associados. Em sua essência, busca formular uma proposta pedagógica com a participação do corpo discente em atividades práticas. Todo o trabalho e o tempo dedicado ao projeto englobam atividades que promovam a liberdade, a cooperação, o saber e o fazer.

A Cooperativa Educacional de Aprendizagem Teutônia (COOPEAT), foi fundada em julho de 2016, contando com a participação de 25 cooperados à época. Para a formalização, houve um processo de construção e aprendizagem sobre a constituição e funcionamento de uma cooperativa, criando-se a identidade da cooperativa.

A Cooperativa Escolar, cuja base na colaboração recíproca a que se obrigam seus associados, tem o objetivo de educar e de promover a difusão da doutrina cooperativista, visando a melhor educação e conscientização dos associados dentro dos princípios cooperativistas. A Cooperativa Escolar é um laboratório de aprendizagem operacional para a prática e para a fixação dos princípios educacionais, preconizados na doutrina cooperativista, por meio da autogestão e solidariedade. Sendo assim, os jovens aplicam na prática o que aprendem em sala de aula, sendo responsáveis pelo planejamento e produção de seu objeto de aprendizagem, bem como a gestão de sua cooperativa.

A COOPEAT tem como objeto a aprendizagem da produção de bens e serviços relacionados ao meio rural, tendo em vista que seus cooperados são estudantes do Programa Aprendiz do Campo. . Através da produção de hortaliças, balas de mel com gengibre e rapaduras, tem como missão promover o desenvolvimento do cooperativismo de forma integrada e sustentável, buscando a satisfação e confiança dos consumidores dos produtos e serviços oferecidos. Em relação à sua visão, busca do reconhecimento por sua excelência no desenvolvimento dos seus diferentes objetos de aprendizagem, baseando-se nos valores da cooperação, ética, honestidade, responsabilidade social e qualidade.

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Para a jovem Alessandra Laís Wunsch, que participa do programa, associada da cooperativa, as atividades desenvolvidas mostram que existem muitas oportunidades para o jovem no campo e sente-se feliz em aprender técnicas que podem ser utilizadas na propriedade como alternativas de renda, inclusive para as mulheres. A jovem enfatiza que antes de participar do programa via o meio rural como lugar de atraso, hoje vê na agricultura uma possibilidade de futuro e modo de vida.

O trabalho cooperativo, como prática de convivência dos estudantes, além de permitir a satisfação de necessidades, a construção de conhecimento e os resultados econômicos, motiva para a necessidade de organização social e política deles. Ao trabalhar coletivamente, os alunos relacionam-se entre si e com a natureza, gerando novas formas de convivência, o que influencia na construção da personalidade humana. A questão central de um trabalho educativo apoiado no associativismo é a viabilização de um processo dinâmico de construção de inteligência coletiva, fundada no conhecimento, na interculturalidade e na ressignificação da aprendizagem, embasada em princípios democráticos e em práticas participativas.

O trabalho integrado entre escola e cooperativas possibilita a aprendizagem do trabalho em equipe, a construção da consciência de comunidade e também o desenvolvimento individual de cada jovem conforme suas capacidades e habilidades, através do incentivo à autonomia, à liderança e ao protagonismo. Está em curso um processo de transformação pessoal desses jovens, de aprendizado sobre cidadania, que dão ao jovem rural a oportunidade de vivenciar os resultados da ação individual e coletiva que podem efetivamente transformar o seu contexto de vida.

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Contato:
Grupo de Estudos e Pesquisas Agricultura Familiar e Desenvolvimento Rural – GEPAD
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Porto Alegre – Rio grande do Sul – Brasil
Alessandra Matte – Secretaria de Assuntos Gerais
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Autoras:
Mirian Fabiane Strate, bióloga, mestranda em Desenvolvimento Rural – UFRGS. E-mail: Esta dirección de correo electrónico está protegida contra spambots. Usted necesita tener Javascript activado para poder verla.
Fernanda Castilhos França de Vasconcellos, economista, mestranda em Desenvolvimento Rural – UFRGS. . E-mail: Esta dirección de correo electrónico está protegida contra spambots. Usted necesita tener Javascript activado para poder verla.

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